sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Uma carta

Niterói, 10 de outubro de 2008.

Oi minha Flor,
hoje, tive muita vontade de escrever (isso me acontece de tempos em tempos) e resolvi fazer essa carta. Já faz muito tempo que não tenho notícias suas e sinto falta de sua presença que costumava ser tão constante.

Não consigo imaginar tudo que possa ter te acontecido nesses anos, apesar de saber dos fatos mais relevantes, nem tão pouco imaginar o quanto do que você era que ainda sobra no que você é hoje. Essa nossa mania de nos manter abertos a tudo costuma transformar nossas verdades com uma certa frequência. Mas ainda acredito nessas coisas de alma, sabe? Características de cada um que, por mais que o tempo passe, não vão mudar nunca.

Tento me lembrar de você sempre da mesma forma que te vi pela última vez. Das nossas horas sentados em um meio fio no alto do nosso morro, vendo a cidade lá embaixo, discutindo filosofia, religião ou qualquer coisa banal. Me lembro ainda das tantas vezes em que não discutíamos nada, só admirávamos o incessante fluxo das pessoas no mundo.

Minha vida continua estranha, Flor. Às vezes, os dias passam depressa demais, outras custam a terminar. Tem semanas que fico atolada de trabalhos a fazer e em muitas outras, me dedico a ler tudo que me parece interessante, para ocupar o tempo vago. Tenho lido muita coisa, Flor. Muita coisa que você ia gostar de ler. Muito romance de escritor latino. Descobrindo essa coisa de latino que a gente tem, mas que vive querendo negar, sabe? Essa coisa de achar que não nos parecemos com argentinos ou chilenos ou colombianos. Gosto de me sentir parecida com eles. Resolvi aprender espanhol.

Resolvi um monte de outras coisas também, mas ainda não sei quantas delas vou conseguir pôr em prática. Fiz um projeto, Flor. Ficou bonito e diz respeito a uma coisa que eu gosto muito. Espero que ele dê certo, porque se der eu vou viajar e conhecer o sertão. Vou conhecer o Nordeste por dentro, a terra da minha mãe e dos meus avós. Vou conhecer o nosso país de outro jeito, sem aquela máscara que a gente veste quando vê turista.


Essa coisa de querer conhecer as pessoas, os lugares, não consigo arrancar de mim. Talvez fosse mais fácil se eu me sentisse bem ficando quieta em um único lugar. Não passaria tanto tempo longe dos meus queridos. Mas é incontrolável.
Aconteceu uma coisa hoje. Passei pela Rocinha à noite, Flor. Nunca havia passado por lá à noite assim, devagar, observando as coisas, vendo como o comércio, as pessoas, tudo continua funcionando até tarde. Você tem que ver o mundo que é aquilo lá. Fiquei feliz de ver as crianças brincando nas praças, nas quadras, nas rampas de skate. Estão construindo uma passarela. Agora as pessoas não vão mais precisar se arriscar atravessando a avenida no meio dos carros. Estão fazendo muitas obras por lá. Aquelas pessoas merecem, sabe, Flor. Merecem ser tratadas como pessoas. Principalmente as crianças. Tenho pensado muito em crianças ultimamente.

Tem muito mais coisas que eu quero te contar. Quem sabe numa próxima carta. Agora estou um pouco cansada. Sabe, Flor, pensar demais na vida às vezes cansa e às vezes eu fico triste, meio sem saber porquê. Deve ser o cansaço.


Cuide-se sempre. Aguardo notícias.

Um comentário:

_peron. disse...

que fofura, gente.
preciso mandar tanta coisa que eu já escrevi pros outros tbém.