Mostrando postagens com marcador trechos perfeitos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador trechos perfeitos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Nosa Senhora da Solidão

"Uma dessas pessoas que pareciam viver só pelos sentidos. Uma inocente. Que transitava pela vida dos outros, quebrando seus moldes, seduzindo, mas sempre acabava partindo. Talvez seja verdade, afinal, que corre sangue cigano em suas veias. Faca de dois gumes, sem dúvida, pois graças a isso, Santiago Blanco se apaixonou, mas justamente por isso nunca largou tudo por causa dela. Quando quis fazê-lo, nos últimos anos, já era tarde."

(Nossa Senhora da Solidão, Marcella Serrano)

"Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão"

"- Mas o amor...sempre me pareceu não ter nada a ver com a paixão. E ao mesmo tempo, ser impossível de sustentar sem ela.

- É. O amor não é suficiente.

- Não foi. Nunca foi, nem nunca vai ser. Amor sem tesão é sentimento de amigo. Tesão sem amor é sensação para uma boa trepada. Amor com tesão devia durar para sempre. Mas nem sempre dura.

- As pessoas e essa teimosa mania de complicar o que é simples.

- A primeira vez que a gente se apaixona, acha que descobriu o amor. Que não vive mais sem aquele serzinho (que tantas vezes se torna insignificante em menos de um ano). Depois que essa paixão de adolescente passa, a gente descobre que não era nada daquilo. Às vezes, acho que posso me surpreender num próximo relacionamento e mais uma vez descobrir que todo esse amor que eu senti, não era nada daquilo.

- E, às vezes, você pode ficar procurando eternamente por esse sentimento em outro alguém e não conseguir encontrá-lo. O problema é isso se tornar um parâmetro.

- Impossível não comparar qualquer relação com a melhor que eu já tive. Ou ao menos a mais intensa.

- Não tem como não comparar as pessoas. Esse negócio de aguentar frustração, engolir em seco e dizer que está tudo bem é coisa pra quem tem sangue de barata, ou quem finge sentir o que não sente ou ainda, finge não sentir o que sente. Mas isso acontece com o tempo. Aos poucos certas coisas se sobrepõem. É porque você ainda não teve um relacionamento, desses com R maiúsculo, desde que terminou. Um dia ele chega e os parâmetros vão mudando.

- É que pra ter um relacionamento, desses com R maiúsculo, a gente precisa deixar que ele chegue e digamos que eu tenha passado um bom tempo sem deixar que essa oportunidade aparecesse e nas poucas vezes que deixei, me frustrei.

- Eu sei. Mais um processo natural. Você precisou viver esse luto. E confesso que te fez super bem. Algumas das suas melhores sacadas aconteceram de um ano pra cá. E das melhores histórias também, diga-se de passagem. Mas chega de luto. Se joga no mundo."


Esse negócio de ter Blog é como poder tirar fotografias. Certas conversas não devem ser esquecidas.


"Paixão é suar frio, é ficar imaginando o próximo encontro, é criar expectativas diariamente. É uma vontade enorme de engarrafar aquele sorriso, mesmo sabendo que isso não é preciso, porque é só fechar os olhos e ele vem." (C.Damasceno)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sentimentos cíclicos

Vasculhando a caixa de e-mails


"Camilinha, Freud chama isso de repetição. Você tem uma tendência a fazer as coisas da mesma maneira, sempre. Só precisa cuidar pra não cometer os mesmos erros."


"eu sei muito dela mas não sei muito bem o rumo que você tá querendo tomar com ela. não te conheço,não sei de tudo o que tá rolando entre vocês, não tô perto pra ver, entende? por mais que ela me conte.

o que eu sei e posso te falar com a maior certeza, é que o maior ponto em comum que tenho com a "pequena" é a tranquilidade que prezamos em TUDO o que fazemos.

abri mão do que eu sentia por ela pra ter uma vida tranquila, pra você ter uma idéia.

ganhei a melhor amiga das conversas mais tranquilas e das risadas mais gostosas, você mesmo pôde ver isso aquele dia.

e a Camila é assim, sente tudo de acordo com a tranquilidade que ela tem, se apaixona, desapaixona, sente tesão, sente que tem que afastar, sente que é melhor ficar calada, sente que é melhor esperar, sente que é melhor fazer isso hoje, sente que é melhor não, sente que tá com vontade de fazer e faz...tudo pra ela chegar no msn e me falar "ai, tô bem mais tranquila agora."
sabe? é isso ... rs.

a maior complicação da camila sobre as outras pessoas é que ela não tem segredos.

eu sei tudo o que ela sentiu e não sentiu por mim e ela sabe tudo o que eu senti e não senti por ela. e ponto!

sem joguinhos, sem expectativas, sem dúvidas.

o dia que você jogar limpo, for extremamente sincera com aquilo que você quer de verdade, com ela e principalmente com você, e se todas essas suas decisões forem relacionadas à vontade e à tentativa de ficar com a camila, aí eu acho que finalmente ela vai enxergar alguém pra tentar dar certo.

mas sem expectativas! se por acaso tudo der errado e você for a mais nova solteira da cidade, saiba que aquele pensamento clichê de "pelo menos eu tentei" não só funciona como te ajuda a ver os relacionamentos de outra forma.

experiência própria"



"Quisera eu
Ser a primavera
A boa-nova
Os sabores da vida
Dentro da sua tigela colorida
De tons incomuns
E colorir um a um
Os seus momentos nus
Queria ser
Quem você quisesse ver
Te dar bom dia antes do sol
E sem te acordar, mergulhar
Debaixo do seu lençol
Quisera eu, como eu queria
Saber que você me espera
Na próxima esquina
Pra irmos pra casa"
(Lulu Santos/ Zelia Duncan)

Quando tudo é quase nada



Eu sei. Prometi não escrever, não ligar, não mandar mensagens ou deixar recados. Eu sei.

Sei ainda mais do que tem me inquietado e do que tem me movido e do que tem me levado nesse último mês. Nessas tardes de maio. Nessas páginas amareladas de Drummond, nesses cafés com pães de queijo, nesses olhares cruzados quando menos se espera.

Sei dos riscos e dos medos. Dos anseios, das precipitações e dos impulsos. Sei de mim mais do que nunca. E de você, cada vez mais.

Sei da razão e da sensatez, que acaba por nos fazer pensar em pensar mais um pouco. Sei também dos instintos escorpianos e das coisas que se sabe e que sabe-se lá porquê não se evita.

Sei da paciência e da calma, sei da compreensão. "Eu me esforço, confesso. Mas é de verdade, juro".

Sei que quanto mais alto se sobe, maior o tombo. Sei que quanto mais raso se vive, mais amargo o gosto. Sei da minha mania de intensidade. Sei das tardes de maio. Dos cafés com pães de queijo. Sei de filmes e cobertores.


"Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa..."


Sei dos meus anseios e vontades e sei ainda do medo e dos receios de que sobrem mágoas. Mas antes as mágoas que me sobrem, que o ressentimento de não ter vivido.



"Sereia bonita descansa teus braços em mim
Eu quero tua poesia teu tesouro escondido
Deixa a onda levar todo esboço de idéia de fim
Defina comigo o traçado do nosso sentido"
(O Teatro Mágico)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Mania de poesia

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.
(C. D. de Andrade)


Por onde andarás J. Pinto Fernandes?


Soneto de Separação


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(V. de Moraes)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Odalisca Andróide

Descobrir o verdadeiro sentido das coisas é querer saber demais

Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores.

Os céus estão explorados mas vazios. Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando. Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv.

Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador.

(Fragmento do Texto Disco Voador, de Fausto Fawcet)




"Todo mundo ama um dia,
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
E no outro vai embora
Cada um de nós compõe
A sua própria história
E cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
De ser feliz"
(Almir Sater e Renato Teixeira)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Salve Jorge!

Axé pra quem é de axé, saravá pra quem é de saravá


Eu sou descendente zulu
Sou um soldado de Ogum
Um devoto dessa imensa legião de Jorge
Eu, sincretizado na fé
Sou carregado de axé
E protegido por um cavaleiro nobre

Sim, vou na igreja festejar meu protetor
E agradecer por eu ser mais um vencedor
Nas lutas, nas batalhas
Sim, vou no terreiro pra bater o meu tambor
Bato cabeça, firmo ponto, sim senhor
Eu canto pra Ogum

Ogum

Ogum
Um guerreiro valente, que cuida da gente que sofre demais

Ogum
Ele vem de aruanda, ele vence demanda de gente que faz

Ogum
Cavaleiro do céu, escudeiro fiel, mensageiro da paz

Ogum
Ele nunca balança, ele pega na lança, ele mata o dragão

Ogum
É quem dá confiança pra uma criança virar um leão

Ogum
É um mar de esperança que traz abonança pro meu coração

Ogum

Deus adiante paz e guia
Encomendo-me a Deus e a virgem Maria, minha mãe ..
Os doze apóstolos meus irmãos
Andarei neste dia, nesta noite
Com meu corpo cercado, vigiado e protegido
Pelas as armas de São Jorge
São Jorge sentou praça na cavalaria
Eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tendo pés não me alcancem
Tendo mãos não me peguem, não me toquem
Tendo olhos não me enxerguem
E nem pensamento eles possam ter para me fazerem mal
Armas de fogo o meu corpo não alcançarão
Facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar
Cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Jorge é da Capadócia.

Salve Jorge!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Mais trechos

Pedaços de coisas que fazem sentido além do sentido que deveriam fazer


"Quando por aí anda sobrando tanto filho da porcaria, por que há de morrer gente que faz falta?!"

(Quantas vezes eu quis dizer isso nos últimos dois anos...)


"Que não venha me dizer, a mim que sendo cego vi muita coisa com as orelhas."

(Miguel Ângel Asturias - Vento Forte)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Filho do homem

Trechos perfeitos


"Sempre a dualidade de cinismo e imaturidade, alternando-se nos mais insignificantes atos da minha vida! E este gosto pelas grandes palavras! A realidade era muito mais eloquente".

Augusto Roa Bastos

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Nem choro, nem vela, nem fita amarela

Das coisas que se escreve


"Quis tocar-lhe os braços num gesto de afeto que não lhe cabia. Recuou com as mãos até os próprios braços enlaçando-se em suas confusões. Era linda, estava estática, com os olhos cheios de lágrimas que não rolavam. Quis novamente abraçá-la, pegá-la no colo, levá-la para casa, mas não conseguia se movimentar além do espaço que o próprio corpo ocupa no mundo. Conteve os gestos, tentou algumas palavras. Descobriu que às vezes o silêncio diminui o desconforto".



"Você se aproxima de mim
Com esses modos estranhos e eu digo que sim
Mas teus olhos castanhos
Me metem mais medo que um dia de sol"
(Tom Jobim)

quarta-feira, 18 de março de 2009

Relendo contos antigos

Têm coisas que a gente escreve, mas não sabe bem porquê


(...)

"- E não se importa?

- Me importa que nosso afeto não morra, mas eu não posso controlar os seus pensamentos.

- E o que pensou quando levou essa história à diante? Já faz dois meses que vocês se encontram.

- Não pensei, senti. Tem coisas que não têm solução. Eu e Luísa não vamos nos ver mais, sempre soubemos disso, desde o primeiro dia. E não sofremos por isso. Aproveitamos os momentos em que estamos juntas e só. A vida continua, meus afetos não morrem, são cumulativos.

- E como você vai fazer quando tiver cinqüenta anos e uma lista de afetos acumulados? Nunca pensou nisso? Não pensa no que as outras pessoas sentem? Não respeita que elas possam sofrer?

- Você acha que eu não sofro? Por que será tão difícil respeitar que eu faça as coisas dessa maneira?

- Porque isso é egoísmo. Sua maneira egoísta de ser, de só pensar nos seus sentimentos, nos seus prazeres, nas suas dores, sem se preocupar com as dores que possa fazer outra pessoa sentir.

- Todos nós somos responsáveis pelas nossas próprias dores. Tudo que a nossa mente cria é responsabilidade só nossa, de mais ninguém. Eu não posso ser responsável pelos anseios dos outros, pelas expectativas que criam sobre mim"

..................................................


Estranho a inversão de certos valores. E de certos personagens também.

Desencantos também são cumulativos e podem ser recíprocos.


"Leve então
O resto desta ilusão
E todos os cuidados meus
Brinquedos dos caprichos"
(Chico Buarque)

domingo, 25 de janeiro de 2009

Às pequenas coisas da vida

Pequenas coisas para pequenas pessoas

Um gosto, um cheiro, um tempo, um vento, um calor no rosto, uma água gelada na pele, uma água gelada na boca. Pequenos sabores de leves detalhes, desses que acontecem o tempo todo, com todo mundo.

Não sei de onde veio essa mania de sentir mais do que pensar (e olha que eu penso um bocado).

De calmaria à agitação, de nervoso, de ansiedade, de quietude e de medo à paixão.

Paixão por foto em preto e branco, por cheiro de café fresquinho, por pé descalço na terra batida, por pedalinho numa tarde de sol.

Paixão por amigos em mesa de bar, por livros deixados em cima da cama, por música ouvida no caminho, por frases que não se cansam de repetir.

Paixão por vozes, por toques, por ritmos, por letras, por passarinho cantando na varanda e vizinho pedindo uma xícara de açúcar.

E essa velha mania de viver me apaixonando a todo momento.

Vontade de ir embora, de enfiar tudo num notebook e sair por aí a procura de redes e cangas. De copos de mate e de cerveja.

Meus vícios desde o início.

Se os gostos se moldam até os sete anos, devo ter vivido em sete anos mais do que muita gente já viveu até os trinta.

..................................................


"Eu desconfio muito de quem não valoriza o seu ócio predileto e acaba virando gangster de si mesmo. Até podem ganhar prêmios com sua dedicação inumana, mas perdem todo o sabor da vida"
(Martha Medeiros)






"Eu gosto dos que tem fome,
dos que morrem de vontade
dos que secam de desejo,
dos que ardem"(Adriana Calcanhoto)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Com açúcar, com afeto

2008 foi muita informação


Baita preguiça de escrever sobre certas coisas, misturada a uma grande vontade de escrever qualquer coisa.

Dez festas em sete dias, trinta horas sem comer, DJs, enfermeiras e tequileiras por todos os lados, amigos indo e vindo, patrões enlouquecendo e um dos melhores climas de trabalho que já tive.

Meu mundo virando sépia toda manhã e me lembrando a cada dia que as coisas que escolhi pra 2008 se concretizaram antes do ano acabar.

Construiu uma vida e no 360º ela descansou.

Fica um vazio de quereres para o ano que está pra vir.

Que siga o embalo deste que termina abrindo os caminhos dos Filhos-do-Vento.


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .



Família vai bem. O reizinho nunca esteve tão maduro em seus pensamentos e começa a descobrir as delícias das palavras lidas antes de dormir.

Encontros casuais (ou não) deixam os dias mais agitados, mas o que eu quero mesmo é a tal tranquilidade.

Falta coragem de pegar no telefone e fazer aquele convite. Quem sabe até a folga acabar. Enquanto isso, o principezinho vai me ensinando que flores não foram feitas para serem compreendidas.

Hoje não tem música.



"Não devia tê-las escutado", confessou-me um dia, "não se deve nunca escutar as flores. Basta admirá-las, sentir seu aroma. A minha perfumava todo o meu planeta, mas eu não sabia como desfrutá-la". (...)
Confessou-me ainda:
Não soube compreender coisa alguma! Deveria tê-la julgado pelos seus atos, não pelas palavras. Ela exalava perfume e me alegrava... (...) Deveria ter percebido sua ternura por trás daquelas tolas mentiras. As flores são tão contraditórias! Mas eu era jovem demais para saber amá-la."
(O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Instantes Literários

Reflexões de mentes pessimistas, mas incrivelmente sãs



"Chamo-me Fernando Vidal Olmos, nasci em 24 de junho de 1911 em Capitáin Olmos, vilarejo da província de Buenos Aires que leva o nome de meu tataravô. Meço um metro e setenta e oito , peso cerca de setenta quilos, olhos cinza-esverdeados, cabelo liso e encanecido. sinais particulares: nenhum."

(...)

" - Com gente como o senhor o mundo jamais teria ido adiante!
- E de onde a senhora deduz que foi adiante?
Sorriu com menosprezo.
- Claro. Chegar a Nova York em vinte horas (!!!) não é um progresso.
- Não vejo nehuma vantagem em chegar rapidamente a Nova York. Quanto mais tempo se leva, melhor. Além disso, pensei que se referisse ao progresso espiritual.
- A tudo, senhor. O avião não é um acaso; é o símbolo do avanço geral. Inclusive os valores éticos. Não vai me dizer que a humanidade hoje não tem uma moral superior à da sociedade escravista.
- Ah, a senhora prefere os escravos com salário.
- É fácil ser cínico. Mas qualquer pessoa com boa fé sabe que o mundo conhece hoje valores morais que eram desconhecidos na Antiguidade.
- Sim, compreendo. Landru viajando de trem é superior a Diógenes viajando em trirreme.
- O senhor escolhe de propósito exemplos grotescos. Mas é evidente.
- Um chefe de Buchenwald é superior a um chefe de galeras. É melhor matar os bichos humanos com bombas de napalm que com arcos e flechas. A bomba de Hiroxima é mais benéfica que a batalha de Poitiers. É mais progessista torturar com aguilhada elétrica que com ratos, na China.
- Tudo isso são sofismas, porque são fatos isolados. A humanidade superará também essas barbaries. E a ignorância terá de ceder em toda a linha, ao final, à ciência e ao conhecimento.

(...)

- Se dependesse do senhor, não haveriam escolas. Se não me engano, o senhor deve ser partidário do analfabetismo.
- Em 1933, a Alemanha era um dos povos mais alfabetizados do mundo. Se as pessoas não soubessem ler, ao menos não poderiam ser estupidificadas dia a dia pelos jornais e revistas. Infelizmente, embora fossem analfabetos, ainda sobrariam outras maravilhas do progresso: o rádio, a televisão. Seria necessário extirpar os tímpanos das crianças e também os olhos. Mas esse seria um programa mais complicado.
- Apesar dos sofismas, a luz sempre prevalecerá sobre a escuridão e sobre o mal. O mal é a ignorância.
- Até agora, senhorita, o mal sempre prevaleceu sobre o bem.
- Outro sofisma. De onde o senhor tira tais barbaridades?
- Eu não tiro nada, senhorita: é a tranquila comprovação da história. Abra a história de Oncken em qualquer página e não encontrará senão guerras, degolas, conspirações, torturas, golpes de Estado e inquisições. Além disso, se prevelecesse sempre o bem, por que seria necessário pregá-lo? Se por sua natureza o homem não estivesse inclinado a fazer o mal, por que ele é proscrito, por que ele é estigmatizado?"


Trecho copiado da obra Sobre Heróis e Tumbas de Ernesto Sábato.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Quando acabar o maluco sou eu

"Tente me ensinar das tuas coisas que a vida é séria e a guerra é dura, mas se não puder, cale essa boca, Pedro e deixa eu viver minha loucura" (R.Seixas)


"Nada tinha mudado na cidade; a única mudança era que as menininhas tinham crescido. Mas elas viviam em um mundo tão complicado de pequenas alianças já definidas e pequenos desentendimentos que Krebs não sentia disposição nem coragem para entrar nesse mundo. Mas gostava de olhar as moças. Havia tantas criaturinhas bonitas. (...) Krebs gostava de olhá-las da varanda da frente quando passavam na rua. Gostava de olhá-las caminhando à sombra das árvores. Gostava dos colarinhos largos e pontudos por cima do suéter. Gostava das meias de seda e dos sapatos de salto baixo. Gostava dos cabelos amarrados atrás e da maneira de andar delas.
Quando ele saía de casa, não se sentia muito atraído pelas moças. Não gostava delas quando as via na sorveteria. Não queria mesmo nenhuma delas. Eram muito complicadas. E tinha mais. Ele queria vagamente uma moça, mas não queria se esforçar para conquistá-la. gostaria de ter namorada, mas não queria gastar tempo para consegui-la. Não queria entrar no mundo dos cochichos e dos mexericos. Não queria cortejar. (...)
Não queria conseqüências, nunca mais. Queria levar a vida sem conseqüências. Aliás, não queria mesmo uma namorada. Aprendera isso no exército. Pode-se fazer de conta que se tem namorada. Quase todo mundo faz de conta. Mas não é verdade. Ninguém precisa de namorada. É engraçado. Primeiro o camarada diz com ar altivo que as mulheres nada significam para ele, que nunca pensa nelas, que elas não conseguem pegá-lo. Depois, outro camarada diz que não pode viver sem mulheres, que precisa delas o tempo todo, que não pode dormir sem elas.
É tudo mentira. É mentira nos dois sentidos. Quem não precisa de mulheres não pensa nelas. Krebs aprendera isso no exército. Mas um dia se arranja uma. Quando se está amadurecido para mulher, sempre se consegue uma. Não é preciso ficar pensando nela. mais cedo ou mais tarde ela aparece. Aprendera isso no exército.
Agora ele até que aceitaria uma garota se ela viesse a ele e não quisesse conversar. Mas naquelas circunstâncias era complicado. sentia que não podia passar por tudo de novo. Não valia a pena."

(E. Hemingway, A Volta do Soldado)


"Se você acha o que eu digo fascista
Mista, simplista ou anti-socialista
Eu admito, você tá na pista
Eu sou ego, eu sou ista
Eu sou ego, eu sou ista
Eu sou egoista, eu sou egoista
Por que não?Por que não?"(Raul Seixas)