Mania de falar no tempo passado. Gosto pela nostalgia. Era/é como perdoar um irmão. Ele não precisa pedir desculpas. Você vai estar sempre esperando. Mas o perdão já foi. Já não faz muita diferença se de fato não abalou muita coisa. Eu não soube pedir desculpas a pessoas que magoei. E esperei ser perdoada como se perdoa a um irmão. Não sei se fui. Andei concentrada em outros propósitos. Andei tomando conta demais de mim. Era preciso. Agora bem. Agora tudo em ordem. Mas distante o suficiente para não saber mais. É como perdoar a um irmão, mas eu não sei se o laço de fraternidade ainda existe.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Um trecho para Pê
Sentiu de novo aquele cheiro. O
vento frio cortando o rosto. A luz invadia os olhos e cegavam. Ela enxergava
melhor na penumbra. Ou era assim que costumava ser. Como naqueles dias em que
recebia a luminosidade aos poucos. E aos poucos observava a luz clareando os
ambientes. O dia nasce devagar. A luz e a escuridão passam horas em
contato. E enquanto uma recua exausta, a outra espalha-se na imensidão. Como
naqueles dias. Dias em que ela apurava o olhar. Dias em que uma garota, com
cara de mais garota ainda, invadia os redutos masculinos na escuridão,
iluminada por placas de neon, e se sentava a mesa com eles. Como um deles. A
fragilidade exposta nos olhos e a segurança mascarada nos ombros. Nos dias em
que ela habitava o mundo dos mortos. “O inferno é isso aqui”, bradou uma vez,
irritada com um papo chato de crente em mesa de botequim. Ali era sempre o
último bar aberto no que restava da madrugada, que podia acabar ao meio dia,
comendo pastel, tomando cerveja e conversando com as prostitutas na feira no
centro da cidade.
Ela sentiu de novo aquele cheiro.
O vento frio cortando o rosto. E as caras amassadas de dormir, misturadas às
aparências cansadas de quem acorda quando ainda é noite, já circulavam pelas
calçadas. Não longe dali, uma criança dormia um sono profundo, envolta em
ursinhos de pelúcia. Aquele cheiro e aqueles sons. O mundo dos homens sendo
desbravado pelo rosto juvenil de menina. O peito estufado. A segurança nos
ombros. Bebia uma cerveja encostada no balcão. Falava qualquer coisa com o
garçom. Ria. Ouvia. Cheirava. Qualquer coisa dessas que a gente vê na noite
todos os dias. Qualquer coisa sobre bêbados brigando na calçada, crianças
cheirando cola e pedindo esmolas, transações sexuais discutidas em mesa de bar.
Qualquer coisa sobre o sentido da vida ou as teorias sobre vida após a morte e
a existência de demônios rondando por aí. “Os demônios são pessoas como essas,
que não percebem que morreram e continuam sugando os outros em busca de álcool,
drogas e sexo” - arrematava em tom de ironia com os parceiros mais frequentes.
E eles eram sempre os funcionários do bar. Do gerente ao segurança.
Ela sentiu de novo aquele cheiro
quando, naquele dia, ele a puxou com força pra dentro e a mandou ficar ali. Os
movimentos anteriores foram uma gargalhada forçada de uma travesti, um
nordestino comprando mais uma ficha para cantar sertanejo no karaokê, alguém
discutindo a conta no balcão e um motoqueiro com o capacete levantado,
arrancando com a moto por cima da calçada. Quando acreditou que ela estivesse
segura, ele se voltou novamente para fora do bar e ela pode ver a arma presa à
cintura. “Ele foi gogoboy. Dançava na boate de vez em quando” – e ela sabia que
era verdade. Tanto quanto sabia que aquele barulho não era de cano de descarga.
Estufou o peito. Ele voltou e a mandou ir embora. A madrugada acabou mais cedo
aquele dia. E pra ela não tinha durado nem duas horas.
sexta-feira, 1 de março de 2013
Não vim ao mundo pra ser passiva
As narrativas faliram, porque não
há como narrar o ponto em que chegamos. Foi mais ou menos isso que pensou o
Benjamin quando o mundo se viu estupefato com as barbaridades cometidas durante
a Segunda Guerra. Hoje, é fichinha. Holocausto é fichinha. Bomba atômica é
fichinha. Nos embrutecemos. Enganou-se aquele que acreditava que o auge da
barbárie traria uma nova consciência, um novo respeito, uma nova ideia de amor
ao próximo. Enganou-se quem acreditou na redenção humana pelas próprias mãos.
Pioramos. E vamos piorando a cada dia. Embrutecidos, anestesiados. Tá fácil assistir à violência nossa de cada
dia. Não precisa ir ao cinema, não precisa assistir telejornais. Ela está por
todos os lados, nos olhares, nas reprimendas públicas das atitudes alheias. E é
nesse contexto que renasce um movimento cristão, reúne adeptos de todas as
classes, prega as palavras bíblicas em troca de uns bons trocados isentos de
imposto de renda. E vai, aos pouquinhos, de pregação em pregação, alastrando
nos peitos doídos e passivos dos desesperados, os sentimentos de ódio, de
intolerância, de desrespeito ao outro. Outro nesse sentido mais preciso da
palavra: aquele que não sou eu, aquele que em nada se assemelha comigo, aquele
que faz suas escolhas pautadas em outros valores que não os disseminados na
minha igreja. Minha igreja. É como os novos cristãos evangélicos falam. Os
católicos creditam À Igreja, assim, com letras maiúsculas, a única salvação
possível. Os evangélicos tem cada um a sua. E vão de casa em casa, na padaria,
na esquina, na fila do banco, no meio da rua, no congresso nacional, sem pudor
ou respeito às opiniões alheias, convocando cada vez mais adeptos a se unirem
nessa causa divina. Como se a quantidade de pessoas encaminhadas à igreja fosse
alargando as portas do céu pra ele ou ela. Vai garantindo seu espacinho ao lado
de Deus, depois do dia que a barbárie o pegar de jeito, ou quando a morte,
naturalmente, se alastrar em seu sangue, em seu corpo e deixar vazia de alma
essa carcaça que carregamos. Todos iguais. Por dentro, somos todos iguais, com
coração, pulmões, estômago e intestinos funcionando de forma igual (respeitadas
as devidas singularidades. Singularidades que a natureza propõe, experimenta,
como forma de povoar esse planeta com uma diversidade enorme de seres vivos,
diferentes em cor, tamanho, tipo de alimentação e etc). Como nos canta Rita
Lee, muito sabiamente, um dia depois, tudo vira bosta.
Não são possíveis mais narrativas
porque a experiência humana às transborda. Uma narrativa não dá conta de toda
barbárie que somos capazes de produzir. Acho que foi isso que o Benjamin quis
dizer. E o nosso cotidiano anda tão saturado de eventos bárbaros, que nos
anestesia. Mas eu não vim no mundo pra ser passiva, pensei cá com meus botões.
E resolvi que escrevendo conseguiria transpor pro papel, pro ator, pro público,
essa angústia que me invade todos os dias, todos os dias, quando no meio da rua
ou dentro do ônibus ou na fila do metrô, quando todos os dias eu me deparo com
a intolerância estampada na cara das pessoas, na fala das pessoas, nos gestos
das pessoas. Mas não. O papel nunca é suficiente. O que eu escrevo nunca é
suficiente pra expurgar a dor de ver (inclusive em pessoas que eu amo) esse
ódio ao outro. Esse não suportar que o outro seja como ele quer ser, como ele
escolhe ser, com seus defeitos e qualidades. E aí, me vem essa notícia
sensacional: um senhor, pastor evangélico, declaradamente homofóbico e racista,
irá assumir a presidência da comissão de direitos humanos. Vai ser agora
responsável por propor medidas em relação às minorias e, antes mesmo de assumir
seu lugar, anuncia que irá acabar com os privilégios conquistados pelos
homossexuais nos últimos anos. (PRIVILÉGIOS???!!!) E o que pra muita gente é
uma notícia corriqueira no facebook, me pega em cheio, me tira a fome, me joga
na cama e remexe meu estômago e intestino. E aqui já nem me cabem mais as
palavras para expor a esse cidadão e aos que compartilham de sua opinião, que homossexuais
não tem quaisquer privilégio em nossa sociedade, pois nos faltam os direitos
civis básicos. Ou, para falar a língua que os senhores preferem, nos falta o
direito primeiro, primordial, nos falta o direito divino à vida. O seu
preconceito e a sua intolerância mata mais do que o exército de Israel. O
Brasil, que já não é mais o primeiro do mundo no futebol faz tempo, também faz
tempo que não sai do primeiro lugar do mundo em extermínio de homossexuais.
Extermínio sim. Porque são assassinatos direcionados. São tocais armadas,
ciladas planejadas. Vocês, senhoras e senhores evangélicos intolerantes, estão
exterminando seus filhos, sobrinhos, netos. Vocês, senhoras e senhores
evangélicos intolerantes, estão incentivando o extermínio de meninos e meninas
adolescentes, muitos antes mesmo de chegarem aos vinte anos. Não é bullyng, não
é piadinha, não é hipocrisia, é ASSASSINATO. Essas pessoas tem pai, mãe,
irmãos, filhos, sobrinhos. Essas pessoas nascem de vocês e o que elas carregam
não é uma falha de caráter, não é uma má formação genética, é o seu sangue, é
amar e esperar que em um país dito democrático, existam leis que assegurem a
elas o direito de viver. Não precisamos esperar um outro holocausto ou a
explosão de uma bomba atômica para que as narrativas não deem conta da nossa
experiência. Ela já não dá. A minha narrativa não dá conta dos meus colegas
mortos e violentados por serem quem eles são. A minha narrativa não dá conta do
meu medo de ser a próxima vítima.
Camila Damasceno
Campinas, 01/03/13
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Guará
Era a bola rolando, o estádio lotando, a torcida cantando e a vida levando. Pra diante. Distante a cada dia e perto, cada vez mais perto daquela ideia distante e vaga de paraíso. E tem restaurantes e bares e grupos de teatro. E tem fruta brotando no quintal e os bichos soltos pela grama. Tem o galo do vizinho e as cinquenta maritacas que dão boa tarde todos os dias. E tem até parque pra caminhar e ver a lua cheia iluminar o lago como tocha enquanto as capivaras pastam logo ali. -É a família inteira, o pai, a mãe e os filhinhos. - E aquela média ali do lado? Deve ser a sogra. - E o som dos passos nos paralelepípedos e som da viola nos fundos, no domingo. E tem até shopping center perto do paraíso com grandes livrarias e cinemas e teatros e boates e restaurantes e hamburguerias e sorveterias e docerias e móveis e roupas e tudo mais que se queira e se pode comprar num shopping. É a rede rangendo, a comida cheirando, o cachorro latindo, os livros se amontoando. A vitrola rodando, os dedos teclando, o incenso queimando. É a vida seguindo, cada vez mais perto, cada vez mais dentro, cada vez mais calmo, cada vez menos angústias e ansiedades, ou ao menos, todas andando em outro ritmo. É esvaziar-se porque tem muita coisa melhor abrindo espaço pra entrar. Minha casa no campo, onde eu possa guardar meus amigos, meus discos e livros e nada mais.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Rumo aos 400
Os dez primeiros filmes do ano nos dez primeiros dias.
Vou postar na sequência que for assistindo, tendo a meta de 400 até dia 31/12.
Com pequenos comentários sobre as sensações imediatas após assistir os filmes.
Segue a lista:
![]() |
| Set do filme PI, do diretor Darren Aronofsky |
1- Deus e o diabo na terra do sol – Super clássico
do Glauber Rocha. Assisti em doses homeopáticas, porque precisei parar varias
vezes pra fazer outras coisas. Sensacional. Algumas cenas são muito bonitas.
Tive vontade de imprimir e emoldurar pelo menos umas três. Não vi tanta graça
na cena clássica (a câmera rodando ao redor do casal). Achei que o filme tem
outras melhores. Como a sequencia em que o profeta mata a criança.
2- O Hobbit – efeitos especiais legais e o primeiro
da série Senhor dos Anéis em que não durmo no meio. – Valeu o ingresso.
3- Snatch - Porcos e Diamantes. – Divertido. E o Brad Pitt está ótimo. Os
cruzamentos das histórias são bacanas, mesmo os mais forçados. Benício del Toro
também está muito bom. Pena que aparece tão pouco. Valeu os R14,90 que paguei
nele.
4- Preciosa - Pegaram pesado na desgraceira. Mas
tem uma cena bonitinha da professora com a esposa. Gostei do tratamento com o
casal gay. A atuação da Mo'Nique está sensacional.
5- Rashomon – Clássico do mestre Akira Kurosawa.
Muito bom mesmo. Me disse Marco Antônio: “nunca vi um clássico ruim”. Segui e a
dica e não me decepcionei.
6- Pi – Talvez um dos melhores filmes que já vi. A
direção é foda é o roteiro idem. Se fossem meia boca, não passaria de mais um
filme com números e uma teoria da conspiração.
7- Questão de Honra – Tom Cruise e a eterna ex do
Bruce Willis. Filminho sessão da tarde, cobertor e chocolate. Mais um
endeusamento de advogados e suas retóricas.
8- Detona Ralf – Podia ser melhor. Talvez a única
coisa mais bacana seja ver os vilões de jogos clássicos se movendo de outras
formas e falando. Do mais, vem com uma moral da história fraquinha e forçada
demais pros tempos atuais dos norte-americanos (presidente negro, guerras e
crises).
9- Uma família em apuros. – Acima da média pra um
filme sessão da tarde. Vi no cinema e valeu o ingresso. Bom pra ver com a
família. Ri demais.
10- Oliver Twist – Mais um que apela nas
desgraceiras. Baseado no livro homônimo, apresenta a velha ideia de que o que
vem do campo é bom e puro e a cidade perverte o homem. Será? Do mais, as
maquiagens e figurinos são muito bem feitos.
Nos próximos dez, espero já estar No, com o Gael Garcia e Django Livre, do Tarantino. Os dois que estou esperando mais pra assistir.
Nos próximos dez, espero já estar No, com o Gael Garcia e Django Livre, do Tarantino. Os dois que estou esperando mais pra assistir.
domingo, 30 de dezembro de 2012
nata
uma cena de alguém cortando fora a tatoo com um estilete, minha avó num avião da FAB, meu avô entrando bêbado cantando boemia. era uma frase que eu me lembrei hoje de manhã e já me esqueci novamente. é alguma coisa com um longo começo sem falas, câmera fechada e o som do mar. é a sutileza de poucas palavras e histórias cruzadas em momentos banais. qualquer coisa com pássaros e gaiolas (gostei demais dessas metáforas) e um ambiente surrealista. tarantino, sudoeste e uma bela paisagem agreste. o mar. mais silencio que barulho. a música que é silêncio. o som do tunel. o tiro, o grito e o grito em expressão escrita. é algo sobre amizade e suportar essa dor imensa que corroi tudo enquanto buscamos enlouquecidamente os momentos para sorrir. é uma história de maquinista e de bondade e de coisas das quais somos capazes (sem precisar de momentos extremos e cruciais da vida). é sobre as pessoas que eu conheço e as historias que eu vi/ouvi por aí nesses últimos 28 anos.
no fim de tudo, é sobre o que eu nunca vou saber responder.
retrospectiva
e no meu sonho, ela era paz. negra, linda, cabelos longos escorrendo pelos ombros, olhos de mel, olhar de tranquilidade.
mais uma vez, eu não me lembro o que ouvi. mas se ouvi, está aqui dentro em algum lugar.
acordei e descobri que ela é mãe. que ela é mais paz do que guerra, que está mais perto do que longe.
acordei e descobri que são só meus os sentimentos que me acometem em sonhos.
................................................................
escrever nunca foi uma opção
misto de necessidade e impulso
única forma conhecida para expressar certas coisas
e é bem aí que eu encontro aquela velha dificuldade com algumas palavras faladas.
eu sei escrever.
e hoje eu sei disso.
...............................................................
"seguro morreu de velho", diz meu pai.
................................................................
precisar se encontrar dentro de si mesma.
precisar conhecer ou reconhecer de si o que nunca foi tão claro.
o campo, o mar, a vida.
algumas coisas que sabemos podem se tornar insultos quando ditas.
................................................................
a violência da cidade é difundida por cada alminha que a habita.
................................................................
eu me a mim - sem egoísmos.
................................................................
acabou 2012 e o mundo ainda anda por aí.
.................................................................
sabe o que não muda?
o conforto e sossego que eu encontro no seu cheiro.
talvez tenha ficado devendo mais declarações de amor.
mas ouvi esses dias, em algum filmeco-comedia-romântica-sessão-da-tarde, que quem precisa alarmar o amor que sente é porque não sente o amor que alarma.
eu te amo.
mais uma vez, eu não me lembro o que ouvi. mas se ouvi, está aqui dentro em algum lugar.
acordei e descobri que ela é mãe. que ela é mais paz do que guerra, que está mais perto do que longe.
acordei e descobri que são só meus os sentimentos que me acometem em sonhos.
................................................................
escrever nunca foi uma opção
misto de necessidade e impulso
única forma conhecida para expressar certas coisas
e é bem aí que eu encontro aquela velha dificuldade com algumas palavras faladas.
eu sei escrever.
e hoje eu sei disso.
...............................................................
"seguro morreu de velho", diz meu pai.
................................................................
precisar se encontrar dentro de si mesma.
precisar conhecer ou reconhecer de si o que nunca foi tão claro.
o campo, o mar, a vida.
algumas coisas que sabemos podem se tornar insultos quando ditas.
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a violência da cidade é difundida por cada alminha que a habita.
................................................................
eu me a mim - sem egoísmos.
................................................................
acabou 2012 e o mundo ainda anda por aí.
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sabe o que não muda?
o conforto e sossego que eu encontro no seu cheiro.
talvez tenha ficado devendo mais declarações de amor.
mas ouvi esses dias, em algum filmeco-comedia-romântica-sessão-da-tarde, que quem precisa alarmar o amor que sente é porque não sente o amor que alarma.
eu te amo.
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