quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Uma carta [2]

Olá minha Flor!

Há quanto tempo que não te escrevo algumas palavras... Não que eu tenha me esquecido de você, nem que tenha andado tão ocupada que não encontre alguns instantes antes de dormir (como agora) para rascunhar frases soltas que te contem um pouco de mim. Sei que gosta de receber notícias e confesso que gosto de contá-las. Meu silêncio se prolongou dessa vez para que se acumulassem acontecimentos relevantes. Coisas das quais vale a pena escrever. Durante um período, minha vida ficou como um banho morno. Mas não se preocupe, minhas inquietações nunca cessam por completo, de modo que cá estou, com uma pilha de notícias e comentários a fazer do que tem se passado.

A primeira delas, e provavelmente a mais importante, trata de uma descoberta - ou de uma redescoberta - um tanto banal: Que beleza é estar apaixonada! E que bom saber que você estava certa, quando dizia que tudo era uma questão de aproveitar os encontros, de se deixar envolver pelos cheiros, pelos gostos.

E como é linda a mulher que eu amo, Flor! Que me faz diariamente pensar em ser melhor, sempre melhor do que ontem. Que me faz diariamente me encontrar comigo. Com meus medos, meus anseios, minhas angústias e minhas ansiedades. Encarando-os nos olhos, subvertendo-os, superando-os, ou caindo aos seus pés como uma criança desamparada, fazendo tempestades em copo d'água, aumentando a dor que se espera, para que na hora em que ela chegar, seja um tanto mais branda do que se imaginou.

Ah, Flor! E como é bom se sentir feliz com pouco. Como é bom encontrar tanta coisa em um abraço. Como é bom saber de um cheiro, de um gosto, de um colo e de um sorriso, nas madrugadas chuvosas ou nos domingos de sol a pino.

Dois mil e nove é ano de Iansã, Flor. A rainha dos raios e das tempestades. Minha mãe. Minha guia. O orixá que abre todos os meus caminhos, que me protege, que me guarda. Dois mil e nove é o ano da minha mãe Iansã. Muita chuva ainda. De agora ao último dia do ano. Lavando o mundo. Rainha dos raios e das tempestades. Ainda vem muita chuva, Flor. Não se esqueça da janela aberta, nem de tirar os aparelhos da tomada. Diz pra sua mãe ter cuidado com os meninos, nos dias em que o rio estiver cheio.

A segunda notícia, Flor, é que eu consegui um emprego. Vou embora mais uma vez. E dessa vez não é só meu pequeno que fica, fica também a mulher que eu amo. Ficam meus amigos mais próximos, ficam meus irmãos. Vou eu. Vou eu me recolhendo novamente às minhas coisinhas. Vou eu tocando em frente essa vida que é só minha. Mesmo que eu teime em doar pedacinhos dela aos que eu amo. Mesmo que eu teime em dividir ela ao meio, entre o meu pequeno e a mulher que eu amo. Mesmo que eu não desista de dedicar parte dela a pessoas que mal conheço, numa loucura de diminuir essa culpa de coisas ruins que acontecem todos os dias e que nós colaboramos, de olhos vendados, em troca de pequenos prazeres tão mesquinhos.

Ah minha Flor...tenho pensado em você. Outro dia mesmo senti seu cheiro dentro de uma lanchonete. O lugar estava cheio e eu não conseguia identificar de onde vinha. E por uma fração de minuto eu pensei que poderia ser você. Eu quis que fosse você. Com seus olhos doces e seu abraço apertado. Mesmo sabendo que você não estaria ali. Ah Flor... se ao menos eu soubesse por onde você anda, o que anda fazendo, que livros está lendo, a quais filmes tem assistido... se ao menos eu pudesse ouvir sua voz, me dizendo para ter calma, que aos poucos as coisas entram no lugar. Que as coisas sempre entram no lugar. Sabe, Flor, a mulher que eu amo se parece muito com você nisso. Só a presença dela, só o olhar, só o inclinar a cabeça me chamando para perto, me dizendo que não há nada demais em se ter dúvidas, que não há problemas em não se saber para onde ir... Talvez vocês se conheçam um dia. A minha Flor e o meu Golfinho. Meus apoios na emoção e na razão. Talvez um dia.

A terceira notícia é sobre o meu pequeno. É também uma descoberta um tanto banal: Ele cresceu. Não tudo que ainda pode, nem o suficiente para deixar de ser uma criança. Mas, a cada dia que passa, ele se parece mais com o homem que um dia vai ser. Meu pequeno, em meio as suas dúvidas e questionamentos tão próprios a um menino de oito anos, nos dá provas diárias de uma sabedoria que não cansa de nos surpreender. Leveza e sagacidade mescladas com uma maneira um tanto peculiar de ver o mundo.

É Flor, os anos estão passando. O que será que você tem feito? Como estarão os nossos? A que velocidade andarão pulsando as coisas por aí?

Sinto falta de suas cartas, dentre tantas outras coisas que me tomam como nostalgias precoces a uma menina de vinte e cinco anos. Escreva-me quendo lhe sobrarem horas antes de dormir. Ou quando sentir minha presença por aí.

Estarei esperando notícias.
Cuide-se sempre.

3 comentários:

viicio disse...

Como adoro ler seus post!
Sempre... muito bons!
Abraço

Srta. Damasceno disse...

eu responderia..se soubesse a quem...

viicio disse...

Desculpe-me!
Daiana